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Eu sempre esperei ver no cinema

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A minha esperança sempre foi o grande cinema. 

Nada de tela grande, monumental, à Hollywood. Mas aquele grande cinema de Ladrões de Bicicleta, de Hiroshima, mon amour, de Luzes da Cidade, de O Garoto, de todo Buñuel.   Com isso chego mais perto do cinema brasileiro. Para mim, eu sempre quis e esperei o cinema de Nelson Pereira dos Santos, de Vidas Secas e Memórias do Cárcere, por exemplo. O cinema de Cidade de Deus, mais recente, ou daquela obra genial Deus e o Diabo na Terra do Sol, ou de algo próximo de O Pagador de Promessas.

Em lugar do que espero, encontro diálogos absurdos, inverossímeis, como pude ver em “Febre do Rato”, um filme a que fui assistir porque seria uma homenagem a um poeta marginal, que se inspirava inclusive em Miró, que tão bem conheço. Decepção total. “Cinema pernambucano é cinema de intuição”, já afirmou uma vez Lírio Ferreira. Mas o que dizer, amigos, diante das últimas notícias, para mim uma das melhores, somente abaixo do discurso da presidenta Dilma na ONU? Como esta aqui:


“Pernambuco sai do Festival de Brasília com dez troféus”

No 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Pernambuco mais uma vez mostrou que atravessa uma fase das mais expressivas da cinematografia nacional. Não conquistou todos os principais prêmios, porém fez bonito. Se o troféu Candango mais cobiçado – o de melhor filme de longa-metragem de ficção – ficou com Exilados do vulcão, da diretora estreante na categoria Paula Gaitán, viúva de Glauber Rocha, em documentário o cinema pernambucano consagrou-se com  bem humorado O mestre e o divino, de Tiago Campos. Produzido pela ONG  Vídeo nas Aldeias, o filme conquistou ainda os prêmios de melhor montagem e trilha sonora.

Amor, plástico e barulho, primeiro longa-metragem de ficção de Renata Pinheiro, sai de Brasília com três Candangos – melhor atriz (Maeve Jinkings), melhor atriz coadjuvante (Nash Laila) e direção de arte (Dani Vilela).
O que dizer disso? Mais, depois que o filme “O som ao redor” é o indicado brasileiro para o Oscar, depois dos últimos prêmios conquistados em festivais brasileiros e internacionais, o que dizer? Talvez o meu conceito de esperança e ambição não bata com a realidade. E quando isso acontece, o conceito tem sinais de um preconceito, ou de uma inadequação à moda, movimento e movie. Uma rejeição ao movie árido de poesia nas telas.

No entanto, restam ainda outras perguntas. Por que o cinema pernambucano de repente, não mais de que de repente, ganha tantos prêmios, como se fosse um raio no céu azul? Não é por milagre. Penso que a premiação vem de muito antes, de quando ainda não havia festivais, nem se premiavam, a não ser com mortes,  uma cultura de conflito e libertação em Pernambuco. Vem da própria história anterior, que passa pelo Ciclo do Recife, um momento do cinema que de 1923 a 1931 fecundou a cultura da cidade. E depois de uma queda, de um quase vazio, desemboca na geração do super 8 nos tempos da ditadura. E que se retoma com O Baile Perfumado, de Lirio Ferreira e Paulo Caldas. O que vale dizer, a partir daí há um ciclo virtuoso de criação que é mantido com financiamento público. A criação entra em vigor nos últimos anos movida por incentivos do governo de Pernambuco. Então se encontram a fome e a vontade de comer. Para se ter uma ideia, de 2011 e 2012, o Funcultura disponibilizou R$ 11,5 milhões para a produção do audiovisual no estado. E com isso, o “cinema consegue se manter criativamente".

A alma desse talento é alimentada com coisas mais materiais. Talvez o cinema de Pernambuco ainda não fale para o mundo, como se anunciava na voz do locutor da Rádio Jornal do Comércio: “Pernambuco falando para o mundo”. Mas, por enquanto, fala para todos os festivais. O que não é pouco.  

*****
Urariano Mota
É pernambucano, jornalista e autor dos livros "Soledad no Recife" e “O filho renegado de Deus”. O primeiro, recria os últimos dias de Soledad Barrett. O segundo, seu mais novo romance, é uma longa oração de amor para as mulheres vítimas da opressão de classes no Brasil.

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