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“Pão ou pães é questão de opiniães”.

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Lobos e cordeiros, micos e rolinhas

Leio nos jornais uma reportagem sobre micos, estes curiosos animais que sempre provocam exclamações de surpresa e satisfação quando visualizados correndo entre os fios da cidade grande – contrastando com o impessoal asfalto, a poluição e os monumentos de cimento -  ou saltitando de galho em galho , nas árvores que teimam em compor alguns cenários urbanos,  em movimentos tão ágeis quanto deve ser a nossa capacidade de identificá-los.

Aqui no Rio de Janeiro, informa-se que micos, chegados da Bahia lá pelos anos 80 e espalhados por diversos pontos da cidade, estariam em conflito com as rolinhas, cujos ninhos têm atacado, em busca dos ovinhos que lhes servem de iguaria. O fato teria levado os passarinhos a tentarem fugir para sacadas de apartamentos, onde remontam suas casas e esperam estar livres da sanha dos macaquinhos.  

Na rua em que moro, tenho a sorte de contar com  uma razoável convivência com o verde. Uma das árvores da rua se debruça no espaço do prédio em que resido e, nestas  manhãs de primavera,  seus galhos emolduram as vidraças da janela e, não raro, apresentam, logo pela manhã, um espetáculo privado, que aprendi a apreciar, cujos protagonistas são micos saltitantes e brincalhões.  Essa mesma árvore me permite o privilégio de acordar, não raramente, com uma cantoria de passarinhos, em um concerto de que, suponho (sem qualquer conhecimento especializado do assunto), devam participar também as rolinhas.

Até a leitura da reportagem, minha perspectiva do cenário era a mais positiva possível, mas, de lá para cá, ando experimentando uma sensação diferente. Será que a sinfonia matinal dos pássaros não é, em realidade, um pedido de socorro diante das ações arbitrárias dos micos?  Será que o pular agitado desses pequenos macacos não é, na verdade, uma manifestação de prazer de quem acabou de se alimentar das futuras crias das aves desprotegidas?

Tudo isso me lembra a fábula do lobo em pele de cordeiro, que não é fábula por acaso, a mostrar como a natureza no geral, e a natureza humana no particular, desde tempos ancestrais, pode nos pregar peças, pode nos iludir, pode apresentar-se sob falsas peles, ou mantos, ou togas, se quiserem.

Sempre soube, ao analisar fatos e pessoas, que quase tudo permite diferentes abordagens, distintos ângulos, em uma visão meio cubista que reconhece a possibilidade de diferentes pontos de vista na análise de fatos, coisas e pessoas, a partir do lugar em que nos coloquemos para examiná-los.   

Há fatos que podemos comprovar objetivamente, e praticamente inquestionáveis se presenciados pelos nossos olhos ou se houver claríssima exposição das fontes que os tornem irretorquíveis.

Mas há uma outra face, que gera análises fundadas no  sentimento e  joga com a intensidade das emoções que trazemos dentro de nós.  Surgem, então, as opiniões, diretamente vinculadas à nossa visão do mundo, algo que também construímos internamente.  O  perigo é que, nessa construção, queiramos ou não, podem atuar visões maniqueístas e, o que é pior,  outras opiniões, disfarçadas como fatos incontestáveis. Um exemplo é a tal “opinião publicada”, gerando a chamada “opinião pública”. Com relação a essas posições subjetivas, Guimarães Rosa levou esse conceito ao máximo, quando afirmou que “pão ou pães é questão de opiniães”...

Votando aos micos, o meu problema agora é saber se a sua propalada e escancarada  alegria não esconde uma atitude cotidianamente predadora. Saber se esses micos que vejo da janela fazem parte dos tais devoradores dos ovos alheios.  Identificar, nessa pequena história, quem é o herói ou o bandido.

É que, na conjuntura de hoje, antes de aceitar “verdades” tidas como absolutas, temos a obrigação de submetê-las a diversos crivos.  Recentemente, o povo mostrou  saber disso quando, em pesquisa, mais de 70 % disseram não confiar na imprensa.

Vivemos um momento perigoso na sociedade brasileira, em que há muitos lobos se passando por cordeiros, muitos micos saltitantes devorando ovos de passarinhos, sob os olhares deslumbrados ou complacentes dos que não enxergam o subentendido, o imperceptível, ou o não divulgado por interesses mercadológicos, políticos,  ou de outro gênero.

De minha parte, e coerente com o que penso, vou continuar observando, e com redobrada  atenção,  esse aparente espetáculo que a natureza me proporciona. Quero saber se o que os meus olhos parecem ver é o que efetivamente se passa na copa dessa portentosa amendoeira.

Do mesmo modo, acho que os brasileiros devem ficar de olhos bem abertos diante de versões que lhes são apresentadas como fatos reais, para poderem enxergar claramente quem são os micos ou os lobos na história que contam por aí...

*****

Rodolpho Motta Lima/Direto da Redação.

Advogado formado pela UFRJ-RJ e professor de Língua Portuguesa.

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