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Feliz Dias a Pobrezinhos

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Donzela, Boa Intenção, Brinquedo dos Meninos, Caridade...

Você deve estar se perguntando qual a relação entre os nomes do título deste artigo?

Resposta: Não há páginas da história da escravidão que não nos envergonhe.

O site Medium nos apresenta esta relação - ainda pouco abordada, que trata dos dissimulados nomes que os donos das embarcações davam as seus infernos flutuantes, os navios negreiros -  ou navios "tumbeiros", que vem de tumba, sinônimo de caixão.

"As histórias desses barcos de nomes revoltantes estão expostas no mais amplo estudo do comércio transatlântico de seres humanos, iniciado ainda na década de 1960, e reunido pela Universidade de Emory (EUA), no site slavevoyages.org. É partir desta pesquisa que reunimos aqui uma lista com alguns dos mais nojentos nomes encontrados, revela Wilson Prudente, que é relator da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB do Rio de Janeiro e um dos brasileiros descendentes de escravos mais engajados em recuperar a história do povo de seus antepassados africanos. Ele garante que os abjetos nomes desses barcos não eram por acaso.

Daniel Domingues da Silva faz parte da equipe responsável pela pesquisa. Ele garante que a escolha dos nomes era feita pelo dono do barco  -  nunca por seu capitão. Daniel, no entanto, ressalta que havia, entre muitos comerciantes de escravos, uma crença doentia de que eles estavam fazendo "um bem para os escravos".

- Eles pensavam que estavam ajudando a resgatar a alma dos africanos para o reino de Deus, ou seja, trazendo eles de uma terra onde o paganismo imperava para a cristandade".

Após ler todo o artigo completo, resolvi compartilhá-lo aqui no Travessia. E por ser muito grande - mas não do tamanho que o tema exige, também resolvi dividi-lo em oito partes. Caso desejem, podem ler o artigo completo aqui.

*****
6. Feliz Dias a Pobrezinhos

(1812)

Bandeiras: Portugal/Brasil
Tipo de embarcação: bergatim
Travessia realizada: 1
Duração da viagem: 94 dias
Escravos transportados: 355
Escravos mortos durante a viagem: 120
Escravos desembarcados no Brasil: 235
Porcentagem de escravos mortos durante a viagem: 33,8%

Se houvesse um carinho especial pela história dos africanos no Brasil, certamente, estudaríamos na escola a desgraçada saga do bergatim Feliz Dias a Pobrezinhos, que, além de matar 120 pessoas em sua única viagem, carregou consigo esse nome asqueroso.

Em 17 de dezembro de 1811, o barco deixou a África com 355 negros escravizados. Ao contrário da maioria dos seres humanos enviados para o Rio de Janeiro, o Feliz Dias a Pobrezinhos havia carregado seu porão com mercadoria viva na costa africana voltada para o Oceano Índico -  e não no Atlântico. Do porto de Moçambique, saíram escravos colhidos no interior do sul da África, como Zambêzia.

Alguns desses escravos partiam para o Brasil já eram escravos de uma primeira migração forçada, já que os portugueses importavam para Moçambique africanos de ilhas como Madagascar, Ilhas Seychelles e do arquipélago de Comores, todos no Oceano Índico, para depois revendê-los ao Brasil. 


Não há como ter certeza de onde saíram os pobrezinhos que, em vez de felizes dias, tiveram 94 dias de terror no mar.

É bem possível que muitos outros dos 235 que resistiram a tanta tortura não sobreviveram nem mesmo os primeiros dias de Brasil. Não sabemos, por enquanto. Se houvesse um carinho especial pela história dos africanos no Brasil, talvez já soubéssemos.

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Próximo: Graciosa Vingativa.

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