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Ia ser maior, mas não foi.

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Uma visão filosófica sobre os movimentos antidemocráticos.

O “vai ser maior” fracassou. E isso só aconteceu por que não somos os mesmos de 1964.

A impressão que eu tenho é que entre as manifestações do mês passado e a de domingo, há uma diferença apenas: a do mês passado juntou enganadores com enganados; a de hoje, juntou apenas os enganadores.

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Na era da comunicação de massa, com o apoio de alguns veículos de mídia, talvez fosse possível enganar uns bobos. Isso tanto em levar as pessoas para a rua quanto em depois manipular o resultado. Na era da internet, parece que não é mais tão fácil.

Eu fico imaginando quantas pessoas, em 1964, não foram na “marcha da família com Deus pela liberdade” porque simplesmente achavam que era uma marcha religiosa.

Esse, aliás, o pulo do gato no nome da marcha: 1, não deixar claro o objetivo e 2, incluir religião de alguma maneira.

Então jornais que sabiam que se beneficiariam da subida dos militares poderiam publicar fotos de ângulos mais impressionantes que nada seria questionado. Se dissessem que havia 100 mil, havia 100 mil. Se dissessem que havia 1 milhão, havia 1 milhão.

Hoje, há uma capacidade de questionamento muito mais democrática, no sentido que não é apenas um pequeno grupo rico (porque fazer mídia era caro) que determina as verdades. Há mais verdades, e você pode escolher a sua.

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A impressão que eu tenho é que entre as manifestações do mês passado e a de ontem, há uma diferença apenas: a do mês passado juntou enganadores com enganados; a de hoje, juntou apenas os enganadores.

É como se tivessem estado juntos ilusionistas e público numa grande festa, mas grande parte desse público descobriu o truque. Ficam ilusionistas fazendo suas mágicas para uns poucos que ainda caem. Mas são tão poucos que começou a parecer carnaval – tem mais artista que espectador.

Os enganados passam a notar algo de errado no papo. Notam a demagogia. Como pode alguém reclamar da corrupção e roubar a padaria na volta? É alguém verdadeiramente interessado na ética proposta ou é alguém se utilizando da ética como subterfúgio?

É claro que você pode sempre enganar outras pessoas. Pode enganar as mesmas de novo também. Mas me parece, apenas me parece, que as dificuldades vão aumentar para os ilusionistas. Mesmo assim, é sempre bom ficar atento a eles. Sempre pinta um novo truque.

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Com todas as reservas que se pode ter com o MPL, eles têm uma agenda clara e honesta. Você pode discordar do ideal passe livre, por exemplo. Eu discordo, ao menos no momento. Não é hora, quando não se tem educação ou saúde universais, de cuidar de passe livre no transporte público. Mas eu sei que não são pessoas que tentam derrubar os empresários de ônibus só para poder pegar as rotas para si e ganhar uma grana.

Eles verdadeiramente acreditam no modelo e por isso, bem ou mal, não apenas são um sucesso, mas são muito importantes.

Não é o caso dos que pedem impeachment. Estes são os mimados que não suportam ouvir “não”.

Não há interesse em derrubar o rei para tentar um novo regime. O que eles querem é colocar um novo rei. Um que seja amigo. Um que vá deixa-los brincar com seus ouros.

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Emir Ruivo
Músico e produtor formado em Projeto Para Indústria Fonográfica na Point Blank London. Produziu algumas dezenas de álbuns e algumas centenas de singles. Com sua banda, Aurélios, possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração. 
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Publicado ontem no DCM.

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