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A Graciosa Vingativa

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Donzela, Boa Intenção, Brinquedo dos Meninos, Caridade...

Você deve estar se perguntando qual a relação entre os nomes do título deste artigo?


Resposta: Não há páginas da história da escravidão que não nos envergonhe.

O site Medium nos apresenta esta relação - ainda pouco abordada, que trata dos dissimulados nomes que os donos das embarcações davam as seus infernos flutuantes, os navios negreiros -  ou navios "tumbeiros", que vem de tumba, sinônimo de caixão.

"As histórias desses barcos de nomes revoltantes estão expostas no mais amplo estudo do comércio transatlântico de seres humanos, iniciado ainda na década de 1960, e reunido pela Universidade de Emory (EUA), no site slavevoyages.org. É partir desta pesquisa que reunimos aqui uma lista com alguns dos mais nojentos nomes encontrados, revela Wilson Prudente, que é relator da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB do Rio de Janeiro e um dos brasileiros descendentes de escravos mais engajados em recuperar a história do povo de seus antepassados africanos. Ele garante que os abjetos nomes desses barcos não eram por acaso.

Daniel Domingues da Silva faz parte da equipe responsável pela pesquisa. Ele garante que a escolha dos nomes era feita pelo dono do barco  -  nunca por seu capitão. Daniel, no entanto, ressalta que havia, entre muitos comerciantes de escravos, uma crença doentia de que eles estavam fazendo "um bem para os escravos".

- Eles pensavam que estavam ajudando a resgatar a alma dos africanos para o reino de Deus, ou seja, trazendo eles de uma terra onde o paganismo imperava para a cristandade".

Após ler todo o artigo completo, resolvi compartilhar aqui no Travessia. E por ser muito grande - mas não do tamanho que o tema exige, também resolvi dividi-lo em oito partes. Caso desejem, podem ler o artigo completo aqui.

*****

7. Graciosa Vingativa

(1840 a 1845)

Bandeiras: Portugal/Brasil
Tipo de embarcação: Iate a vela
Travessias realizadas: 10
Tempo da travessia (média): 30 dias
Escravos transportados:1.257
Escravos mortos durante a viagem: 125
Escravos desembarcados no Brasil: 1.132
Porcentagem de escravos mortos durante a viagem: 10%

Já não era uma tarefa simples traficar escravos no período do segundo império brasileiro. Após o fim da escravidão no Haiti (1791), a proibição do comércio para os Estados Unidos (1808) e a abolição da escravidão nos territórios britânicos (1833), o cerco para terminar com a horrorosa prática escravista também se fechava no Brasil.

Embora o texto da Lei Feijó vetasse o desembarque de escravos do Brasil a partir 1831, a lei não teve eficácia, não pegou. Assim, na década de 1840, quando a Graciosa Vingativa, sem nenhuma graça, espalhava morte e tortura no Atlântico, a região mais perigosa da viagem não era a costa brasileira e, sim, a africana.

Era necessário, então, apostar em embarcações mais ligeiras, capazes de fugir de barcos estrangeiros. Não que a intenção de todas as forças estrangeiros fosse humanitária. Muitas vezes, a perseguição a navios negreiros se dava por disputa econômica mesmo.

O certo é que o iate a vela que levava o canalha nome de Graciosa Vingativa era muito veloz. Tanto que, em 1844, conseguiu fazer três viagens de ida e volta ao Brasil-Nigéria. Em janeiro, deixou Salvador e chegou a Lagos. Voltou a Salvador com 111 escravos subjulgados na região do Benim. Em março, o barco deixou novamente a Bahia e foi até Lagos, voltou em junho com mais 144 negros cativos. Repetiu o percurso em setembro, com mais 133 presos a bordo. Ao total, seis pernas de cerca de 30 dias cada. Um horror!

Conta o historiador Dale Graden que os carpinteiros baianos tornaram-se conhecidos por sua habilidade em reparar navios de madeira e “prepará-los/ adaptá-los” para viagens escravagistas, numa forma de escapar da vigilância estrangeira. Aliás, também vale lembrar que não havia navios construídos especialmente para acomodar tantas pessoas na travessia. As embarcações eram, na verdade, barcos mercantes.

A Graciosa Vingativa, ao total, foi responsável pelo transporte de 1.257 escravos africanos. 125, 10% deles, não resistiram e morreram no caminho.

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Próxima e última: Regeneradora

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