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O disco do Chico: Primeiro LP do compositor, feito às pressas e sob o sucesso de A Banda, completa 50 anos

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Cinquenta anos atrás, um grupo de músicos e técnicos se reunia ali para dar início à gravação do primeiro LP de um compositor que já era mais do que uma promessa.

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Um prédio pouco convidativo na Rua Paula Souza, na região central de São Paulo, não difere de tantos outros pela conservação ruim e na oferta de bijuterias, malas e bolsas, algo comum por ali, além de equipamentos para bares, restaurantes e hotéis. Fica perto do Mercado Municipal, o conhecido Mercadão, e faz esquina com a 25 de Março, famosa rua de comércio popular. Cinquenta anos atrás, em um domingo, dia incomum para isso, um grupo de músicos e técnicos se reunia ali para dar início à gravação do primeiro LP de um compositor que já era mais do que uma promessa: Chico Buarque de Hollanda.


Celebrado em documentário recentemente em cartaz e hostilizado na rua por rapazes que pouco ou nada sabem sobre sua trajetória – o chamaram de “um m...” por suas posições políticas –, Chico era um rapazinho desconhecido até meados de 1966. Aos 22 anos, estourou com A Banda, canção vencedora do Festival da Record – ao lado de Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros – e que anos depois o ajudaria até em shows obscuros na Itália, já na fase do exílio, tamanha a repercussão. Apesar da fama nacional, até quase fins daquele ano ele era um sucesso sem LP. E a RGE apressou-se a organizar as gravações.

O estúdio ficava no segundo andar daquele prédio da Paula Souza, onde atualmente se vendem bijuterias. No quarto, hoje disponível para aluguel, estava a Rádio Bandeirantes. Já era fim de ano, um domingo à tarde. O produtor Manoel Barenbein conta que a gravação inicial estava marcada para as 14h. Seriam as duas primeiras canções: A Rita e Juca. Mas o compositor, à época no Rio de Janeiro, não chegava.

“Estávamos apreensivos. Naquela época, era inimaginável trabalhar no domingo. Ele não tinha outro dia para vir”, lembra Barenbein, acrescentando que Chico teve um problema qualquer no embarque. “E não tinha celular...”

Impacientes, todos os envolvidos na gravação – técnicos, músicos – esperaram quase duas horas, até que desistiram. Já estavam chegando à rua, quando um esbaforido Chico desceu do táxi, pedindo desculpas pelo atraso.

Para o jornal Folha de S.Paulo, o regime era brando. Há até “historiador” com espaço na mídia para quem nem ditadura havia. Mas em fevereiro de 1966, o governo imposto em 1964 baixava o Ato Institucional número 3 (AI-3), estabelecendo eleições indiretas para governador e nomeação de prefeitos das capitais. Em outubro, mês do famoso festival de A Banda e Disparada, o marechal Arthur da Costa e Silva, da linha-dura do regime, ganhava a eleição – indireta – para a Presidência da República. Seria o segundo presidente do ciclo militar, responsável pela edição do AI-5, dali a pouco mais de dois anos.

O Brasil que retrocedia politicamente também passava por importantes mudanças na economia. Até o começo dos anos 1960, a maior parte da população vivia em ­áreas rurais, mas essa realidade se alterou com o intenso processo de industrialização iniciado na década anterior. A cidade de São Paulo, por exemplo, que tinha 2,1 milhões de habitantes em 1950, em duas décadas atingiu 5,9 milhões – quase o triplo.

Chico chegou a ser “acusado” de ter feito A Banda sem nunca ter visto uma banda, já que morava em cidade grande. O que ele contestou, em depoimento dado ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 11 de novembro de 1966. Ele morou na Rua Haddock Lobo, em São Paulo, e nos fundos havia um terreno baldio, já na Rua Augusta. Ali se instalavam circos e parques de diversões, com suas bandinhas. Quando ele estudou em um internato em Cataguases (MG), também havia bandas por lá. Chico lembra ainda de ter visto, na Europa, banda de escoceses. Ou seja, o que não faltou foi banda para compor.

Mas a música, feita em julho, saiu em outras condições. “Eu lembro que fiz até na hora do almoço, não tinha nada a ver com banda, estava com fome, esperando o almoço”, disse Chico ao MIS. “Eu tive a ideia da imagem da banda passando e vi várias coisas acontecendo. Logo eu tive várias imagens: a moça que vai para a janela, o cara contando o dinheiro. Aí peguei o violão e saiu.”

E saiu quase “inteira de estalo”, segundo ele. “O único problema que ficou foi de mandar a banda embora. Aquele final todo foi posterior. Não queria deixar a banda tocando para sempre na rua, porque eu gosto de deixar as coisas mais reais”, contou o compositor, que também naquele 1966 havia se destacado com a trilha sonora de Morte e Vida Severina, em versão teatral para o poema de João Cabral de Melo Neto – o Teatro da Universidade Católica (Tuca), de São Paulo, foi premiado na França pela montagem.

Na época, Chico só queria compor. “Ele ainda não era um cantor. Tinha o conhecimento, mas não a experiência. Fui uma espécie de chato para ele cantar”, lembra Barenbein. Segundo ele, o primeiro LP foi concluído em quatro ou cinco sessões. “Trabalhar com o Chico era muito fácil. E não eram composições complicadas, que exigiam muitos arranjos. A melodia era fantástica. O grande segredo estava no texto. Na realidade, a gente criava uma trilha para emoldurar a melodia e o texto dele.”

Cantar era mesmo um problema, recorda o músico Luiz Loy, na época à frente de um quinteto que gravou algumas das primeiras obras de Chico. Eles haviam se conhecido ainda em 1965, na TV Record. “Ele não falava. Ficava lá, num cantinho, com o violãozinho dele, esperando a gente chamar.”

Um dia, o diretor artístico Júlio Nagib (que morreu em 1983) procurou Loy e disse: “Tem um garoto novo pra gravar, mas não tem dinheiro. Veja o que você pode fazer”. O grupo, então, fez o acompanhamento de duas músicas – Olê, Olá e Meu Refrão – pelo preço de uma. Essas canções foram gravadas em 1965, para um compacto simples, e incluídas posteriormente no LP. “Não sinto muito prazer em cantar, para falar a verdade não gosto muito”, disse Chico ao MIS em 1966. “Ele estava tão nervoso, a mão tremia, não conseguia tocar”, lembra Loy, sobre a gravação do compacto. O jeito foi chamar Toquinho, o violonista, amigo de Chico e presente no estúdio – que não era o da RGE. “No compacto, o violão é do Toquinho.”

No encontro para a gravação do LP, já era um Chico menos acanhado. “Aí ele já tinha participado do festival, estava um pouco melhor.” O Luiz Loy Quinteto gravou Ela e Sua Janela e Amanhã, Ninguém Sabe, respondendo também pelos arranjos. O músico lembra do estúdio, onde chegou a trabalhar com outros nomes, como Elizeth Cardoso e Elis Regina.

“Eu gravava muito lá, jingles... Só que os jingles eram gravados na parte da manhã. Eram dois canais, tinha de gravar junto com o cantor.” O maestro, arranjador e tecladista também se recorda de uma vez em que Elizeth repetiu várias vezes uma gravação, o que cansou sobretudo os músicos de sopro. Ficou decidido que o grupo deixaria pronta a base, para juntar depois com a voz d’A Divina, como era conhecida. Em 1967, o quinteto de Loy gravaria um LP instrumental apenas com obras de Chico Buarque, autor de um texto na contracapa. Ele considera Chico um dos grandes compositores brasileiros, citando a música Construção, de 1971. “É uma loucura.”

Naquele primeiro e longínquo disco de 1966, estavam, além de A Banda – que abre o LP –, outro sucesso da fase inicial do compositor, como Pedro Pedreiro. E também Tem Mais Samba, de 1964. Foi feita, em cima da hora, para um musical (Balanço de Orfeu), e é considerado o “marco zero” de sua obra.

A última das 12 faixas, todas de ­autoria de Chico Buarque, é Sonho de um Carnaval, que marcou a estreia do compositor em festivais, ainda em 1965, na TV Excelsior – com interpretação de Vandré. Duas músicas estavam prontas, mas entraram apenas no segundo disco, em 1967: Será que Cristina Volta? e Morena dos Olhos d’Água.

“De algumas canções desses dois primeiros álbuns – A Televisão, por exemplo –, ele se sente muito distante. Outras, como Pedro Pedreiro e Olê, Olá, lhe parecem merecedoras de certa indulgência, por conta de juventude. E há uma, A Rita, que Chico ainda canta com prazer”, diz o site oficial do compositor.

No texto de apresentação do primeiro disco, Chico afirma que o LP resumia três anos de música. Comentava que o samba chegava “por caminhos longos e estranhos, sem maiores explicações”. “A música talvez já estivesse nos balões de junho, no canto da lavadeira, no futebol de rua...”

Ele destaca a importância do limão galego “para a voz rouca de cigarros, preocupações e gols do Fluminense”. Conta que só parou de chupar limão para tirar a fotografia que foi para a capa. Na verdade, duas. Uma sorridente e outra sério. Uma capa que, nos dias de hoje, virou meme nas redes sociais.

“No disco, tem esses dois lados (sorrindo e sério)”, observa Barenbein, que não tem ideia de como foram feitas as fotos. “A capa é um trabalho à parte. Só ia ver depois. A capa de Tropicália (disco de Caetano Veloso, de 1967), por exemplo, só fui ver quando o Rogério Duarte veio com a arte pronta.” O autor das imagens da capa do LP de Chico, e do leiaute, é Dirceu Côrte-Real, que morreu há alguns anos.

Para o produtor, o disco saiu como se esperava. “Ali tem obras-primas. Eu tinha certeza de que ali tinha um criador para ser trabalhado. Não se pensava em descartável, tinha de ter conteúdo para ter uma carreira longa.”

Ao MIS, em 1966, Chico disse ter “um medo de morrer danado”. No documentário de Miguel Faria Jr., de 2015, fala com serenidade e humor sobre o tema. Nas duas ocasiões, mostra visão semelhante sobre o que pretende fazer. “Eu estou sempre procurando novos caminhos. Eu não quero repetir o que está feito, então eu tenho que descobrir outras formas de dizer outras coisas”, declarou no depoimento ao museu.

Em 1980, a Som Livre adquiriu o catálogo da RGE. Daquela região de onde saiu o primeiro LP, o que permanece – no térreo de um casarão – é um restaurante, o Expoente, aberto em 1944, justamente o ano em que Chico nasceu. E a obra ­nascida no predinho da Paula Souza deu frutos e ramificou. Estão ali o lúdico, o lírico e o social, características de seu trabalho, que 50 anos depois alguns aparentemente não conhecem.

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Por Por Vitor Nuzzi, do Blog Rede Brasil Atual - RBA)))

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