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Com as pessoas que nós inventamos, só teremos amores imaginários

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O que amamos no outro, muitas vezes, não é o que ele é, mas o que queremos que ele seja.

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Aquilo que era homem! Gentil, culto, romântico, gostava de boa música. Divertido, leal, bem sucedido, parceiro. Adivinhador de desejos. Sabia exatamente onde deveria colocar a mão. Sabia beijá-la. Trazia-lhe flores, o doce predileto. Escrevia bilhetinhos endeusando, em português impecável, a beleza que só ele via. Ainda, os deixava em baixo da xícara de café, recém passado para ela, pela manhã.

Todos nós carregamos ideais. Mas quando se trata de amor, essa capacidade se agiganta de tal forma que corremos sério risco de nos perdermos entre o que é ideal e o que é idealizado. A verdade é que se for uma idealização, hora ou outra, a relação vai trazer sofrimento. O ser encantado não resiste às decepções, fraqueja às diferenças, não suporta o contato e todos os atravessamentos da realidade. É o amor das ideias. Dada à inevitável contrariedade, todo o pozinho de pirlimpimpim se acaba. A carruagem assume sua abobrice, um lord sua forma de canalha e o sapato não entra mais no pé daquela garota, a qual você acreditou calçar um maldito scarpin de cristal, número 35.

Mas afinal de contas, aonde foi parar aquela pessoa, tão magnífica, por quem juraria passar o resto de sua vida? Ele sumiu, ela se foi, acabou. E você? Ah, você disse: — Pegue suas coisas e suma pra sempre dos meus pensamentos. Não é essa pessoa a quem enderecei minha paixão. Aliás, quem é você?

O que amamos no outro, muitas vezes, não é o que ele é, mas o que queremos que ele seja. E quando há decepção, a cortina se abre junto à sensação de que essa pessoa nunca existiu. Ela era uma construção do que desejamos encontrar em alguém. Era fruto do amor idealizado, impalpável, inventado. O amor que não se aproxima, não toca, não envolve, só existe no mundo das ideias. O amor que não suporta, não sobreleva, que não ousa se submeter ao outro. O amor que não aguenta desaforos, que não se sujeita ao imperfeito, é o amor da abstração. Um amor fadado ao fim triste, o amor que nem começa, amor que não se vive.

Enquanto isso, existe por aí uma história de amor ideal esperando ser vivida. Ideal não porque é perfeita e sublime, mas por compactuar com a previsibilidade dos erros. Ideal é quando a condição para o amor é o encontro, assim mesmo, um encontro entre dois. Sem a necessidade de forçar o outro caber nos nossos sonhos. Para ver o amor ideal é condição também se ver imperfeito, sob a certificação de que jamais sobreviveríamos numa relação onde também somos idealizados.

Ideal mesmo é ganhar cafuné meio desengonçado, e gostar. É escutá-la, mas não entender direito o que é que ela fala. É ver o bigode de leite que fica na boca do outro, e ainda assim, sei lá porque, continuar amando.

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Ruth Borges, Revista Bula

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