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Houve uma época em que ações de prevenção à saúde era caso de polícia

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Acervo Morhan
E o tratamento para a hanseníase era a prisão.

Foram décadas e décadas de abandono e omissão por parte do Estado brasileiro, com a benção silenciosa de parte da sociedade "sanitarista".

Mas, finalmente, após todo esse tempo de espera, famílias residentes na ex-colônia Tavares de Macedo (Itaboraí), na região metropolitana do Rio de Janeiro, com hanseníase receberam no dia 29, os títulos de propriedade das casas onde sempre viveram isolados, como que vive em um campo de concentração. Até a década de 1980, quem tinha a doença popularmente conhecida como lepra era isolado do convívio social para "evitar" a propagação da infecção. Agora, foram entregues 790 documentos do local onde vivem cerca de 300 idosos que passaram pelo período de isolamento. 

De acordo com o MorhanMovimento de Reintegração de Pessoas Atingidas pela Hanseníase, os títulos facilitarão a prestação de uma série de serviços públicos, como energia, saneamento, asfaltamento e o atendimento pelos Correios. 

Tatão, cujo nome civil é Sebastião Rosa Ricardo, de 85 anos, e um dos mais antigos pacientes da ex-colônia, foi internado em Itaboraí com 11 anos. Lá foi criado pelos demais pacientes e profissionais do hospital, até conhecer a esposa, Zélia Klein Ricardo, com quem teve oito filhos. 

“Foram tempos difíceis, passamos muita dificuldade, tiraram meus filhos de mim. Só depois eles puderam vir e, hoje, já grandes, se estabeleceram por perto”, relata, comemorando a regularização.

“A casa minha casa vai ser minha e, no caso da minha morte, passará para minha esposa ou para os meus filhos. Essa é a vantagem”, afirma Tatão, que está consciente de suas novas obrigações como cidadão. “O ruim é que a gente vai ter que pagar água, luz, IPTU... É o preço da cidadania, não é?”, brincou. Atualmente, o hospital subsidia os gastos das famílias.

A diretora do Hospital Estadual Tavares Macedo, que hoje é aberto a toda população e oferece uma série de especialidades, Ana Claudia Krivochein, acrescenta que a entrega dos títulos melhora as condições de vida de pessoas que foram impedidas de trabalhar, de acumular riqueza e de construir um patrimônio ao longo de suas vidas. “Muitos dos idosos que estão aqui chegaram crianças. Constituíram famílias, mas nunca puderam deixar nada de herança para ninguém”.

*****

A antiga ex-colônia Tavares de Macedo abrange uma área de 950 mil metros quadros e fica a 3,5 quilômetros do centro de Itaboraí e tem atualmente cerca de 5 mil habitantes - entre ex-internos, famílias de antigos pacientes e profissionais que trabalharam no local - dos quais 790 receberão títulos de propriedade do governo do estado. A previsão é que o pagamentos de taxas, impostos e serviços seja regularizado em um período que deve levar cerca de quatro anos.

Com a regularização das terras das mais de quatorze Colônias espalhadas pelo território nacional, parece que finalmente o Brasil está se transformando em um País de Todos.

Que conhecer melhor esta saga? Conheça aqui.

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