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Boa Intenção

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Donzela, Boa Intenção, Brinquedo dos Meninos, Caridade...

Você deve estar se perguntando qual a relação entre os nomes do título deste artigo?

Resposta: Não há páginas da história da escravidão que não nos envergonhe.

O site Medium nos apresenta esta relação - ainda pouco abordada, que trata dos dissimulados nomes que os donos das embarcações davam as seus infernos flutuantes, os navios negreiros — ou navios "tumbeiros", que vem de tumba, sinônimo de caixão.

"As histórias desses barcos de nomes revoltantes estão expostas no mais amplo estudo do comércio transatlântico de seres humanos, iniciado ainda na década de 1960, e reunido pela Universidade de Emory (EUA), no site slavevoyages.org. É partir desta pesquisa que reunimos aqui uma lista com alguns dos mais nojentos nomes encontrados, revela Wilson Prudente, que é relator da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB do Rio de Janeiro e um dos brasileiros descendentes de escravos mais engajados em recuperar a história do povo de seus antepassados africanos. Ele garante que os abjetos nomes desses barcos não eram por acaso.

Daniel Domingues da Silva faz parte da equipe responsável pela pesquisa. Ele garante que a escolha dos nomes era feita pelo dono do barco — nunca por seu capitão. Daniel, no entanto, ressalta que havia, entre muitos comerciantes de escravos, uma crença doentia de que eles estavam fazendo "um bem para os escravos".

- Eles pensavam que estavam ajudando a resgatar a alma dos africanos para o reino de Deus, ou seja, trazendo eles de uma terra onde o paganismo imperava para a cristandade". 

Após ler todo o artigo completo, resolvi compartilhar  aqui no Travessia. E por ser muito grande - mas não do tamanho que o tema exige, também resolvi dividi-lo em oito partes. Caso desejem, podem ler o artigo completo aqui.

*****

2. Boa Intenção

(1798 a 1802)

Bandeira: Portugal
Rota: Angola — Brasil
Tipo de embarcação: galera
Travessias realizadas: 2
Escravos transportados: 845
Escravos mortos durante a viagem: 76
Escravos desembarcados no Brasil: 769
Tempo de travessia África/América (média): 51 dias

1798 foi um ano marcante na história da escravidão brasileira. Na Bahia, a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates, não tinha a reivindicação abolicionista como prioridade, mas sim a independência brasileira (e baiana) de Portugal. De qualquer modo, a presença de alguns escravos (especialmente os mulatos, já brasileiros) na mobilização revestiu a luta de um caráter popular.

Os agitadores principais foram duramente punidos pelo governo colonial brasileiro/português. Líderes foram executados em praça pública. Muitos escravos foram açoitados no Pelourinho.

Outra condenação levou o escravo alfaiate Cosme Damião Pereira Bastos a se tornar um dos poucos descendentes de africanos que vieram ao Brasil e retornaram ao continente natal de sua família. É claro que ele não foi a passeio, encontrar a raiz dividida. Preso, torturado, foi condenado a dez anos de degredo numa prisão de Benguela, em Angola.

Talvez Cosme Damião tenha cruzado no caminho com mais um barco negreiro de nome safado, a galera Boa Intenção, que em setembro de 1798 deixou Luanda e, durante 42 dias, fez uma viagem infernal até a cidade de Rio de Janeiro, já capital da Colônia.

O capitão do barco Marcos Guimarães Costa deu seu inescrupuloso assento para Anacleto Ferreira Vasconcelos, que conduziu a segunda viagem da Boa Intenção ao Rio de Janeiro, de janeiro a março de 1802. Foi uma jornada brutal. Primeiro embarcou escravos em Benguela. Depois, provavelmente já superlotado, embarcou mais escravos em Luanda.

Em 60 dias de um longo martírio que não se encerraria na chegada, 43 africanos morreram e foram atirados ao mar. Só em 1802, a estimativa é que 88.814 escravos tenham desembarcado no Brasil, a maioria mercadoria de barcos ingleses. É o nono ano mais lamentável do comércio escravista brasileiro.

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Próximo: Brinquedo dos Meninos.

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