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Brasil embrutecido

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"A aceitação do diferente é só um discurso vazio".

(Fernando Brito)

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Um homem espera, sozinho, o ônibus que o levará para casa. Dois carros param diante dele. Os homens que descem o massacram furiosamente com barras de ferro. Até reduzi-lo a um monturo de sangue e carne sem vida. Entram nos carros e vão embora.

A fúria assassina desses agressores está abaixo da mais primitiva desumanidade. Mais uma briga de torcida, como disse a notícia? “Torcedores do São Paulo agrediram um torcedor do Santos, que morreu.” Nem como hipótese.

Estamos, no Brasil, em um agravamento da brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificável como violência urbana. E não basta dizer que nada é feito contra tal processo. O que se passa, de fato, é que nem sequer o notamos. Convive-se com o agravamento como uma contingência incômoda, em seus momentos mais gritantes, mas natural, meras desordens da desigualdade social.

Nada a ver com a perversa desigualdade social. O homem massacrado por vestir a camisa do Santos era portador da desigualdade como o são os monstros que vestiam a camisa do São Paulo. Os bandos criminosos que voltaram a digladiar-se em algumas favelas do Rio formaram-se e vivem nas mesmas misérias da desigualdade social.

O agravamento da brutalidade no Brasil é um processo em si mesmo. E não está só nos territórios da pobreza. A própria incapacidade de percebê-lo é um sintoma do embrutecimento sem distinções sociais, econômicas e culturais. 

Outros sintomas poderiam ser notados – na deseducação, no rebaixamento individual e coletivo dos costumes, em muito do que os meios de comunicação tomam como modernidade, na política. Até onde a elevação do trato entre suas excelências parecia inexaurível  - no Supremo.

Um homem espera um ônibus que o levará para casa. Onde nunca mais chegará. E onde o esperavam um filho de meses e a mulher. Mais uma banal tragédia para duas pessoas, às vezes são quatro, podem ser sete nas casas dos Amarildos? Sem interesse político para explorá-lo, será só isso mesmo, "mais uma briga de torcida que acaba em morte". É, no entanto, um gigantesco questionamento ao país e à sua perdição cega e surda, embalada pela degeneração de suas “elites”; todas elas.

Briga de torcida? Bandos de criminosos estão agora atacando a polícia, no que assim representa a segunda fase – a da reação – do programa de UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora cuja instalação em cidadelas do crime restaurou muito do Rio. No país todo, qualquer incidente, inclusive se provocado por bandos criminosos em disputa, leva à interrupção de ruas e estradas, incêndios de ônibus e carros, já também de moradias destinadas à própria pobreza. A internet convoca sem cerimônia e sem restrição para violências, não lhe bastando os brasileiros, também contra os estrangeiros que venham à Copa e até contra times.

À espera do ônibus ou dentro do carro, branco, negro, pobre, rico: o Brasil se embrutece. E o Brasil nem sequer se nota."

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Janio de Freitas, ontem, na Folha.

2 comentários:

Já dizia alguem: "moro num pais tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza" Aqui não sofremos as devastações dos vendavais, nem terremotos nem maremotos. O medo não nos persegue como acontece nos países que vivem em guerras, e nem a fome mortífera é o retrato do nosso pais. Nunca podemos esquecer que moramos num pais abençoado por Deus. Mas, poluído pela violência, pela crueldade e nem os animais selvagens se comparam com o tamanho da perversidade que a cada dia toma conta das nossas ruas. Parece que a maldade humana encontrou o seu pouso para criar os seu ninhos aqui.Nessas terras onde a natureza ainda não deu seu grito. Quem nos protegerá da insanidade que toma conta das ruas? E nossos filhos? E nossos idosos? As cenas brutais que presenciamos a cada minuto está nos tirando o jeito brasileiro de viver sorrindo e só uma coisa podemos dizer e fazer: concluir que é triste demais.

O Brasil é embrutecido até para cobrar o correto. Desconhece o poder do voto e extrapola na violência. A manifestação é excelente para marginal se infiltrar e agir. Pode ser útil também para político demagogo, que pega carona no caos criado por ele mesmo e por iguais, visando 2014. Também tem olhos azuis e corpo violão para quem assiste à baderna de casa no conforto e segurança da TV. Mas para quem coloca a vida em xeque, como jornalistas e policiais, a história é outra. Para quem é agredido. Para quem vai trabalhar com medo, para quem sai do trabalho exausto, mas não tem ônibus para voltar para casa, e para os lojistas que baixam as portas, temendo os vândalos e os roubos, e acumula, assim, prejuízo, a manifestação é algo maléfico. Algo nocivo que virou moda negativa e precisa de um basta.

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