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Piketty foi brilhante no Roda Viva

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Eu assisti ao programa. 

Ao final me bateu uma vontade de escrever sobre o assunto. Mas, pra que escrever outro artigo se o que li e reproduzo aqui expressa exatamente o que penso? Então, lá vai...

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Thomas Piketti, com seu inglês divertidamente afrancesado, deu um show no Roda Viva.

Ele superou, graças a seu talento, conhecimento e clareza nas ideias, o obstáculo de um moderador reacionário e despreparado. (Quem acredita que Augusto Nunes leu o livro de Piketty acredita em tudo.)

Piketty, em 90 minutos menos o demorado tempo gasto por alguns entrevistadores para formular as perguntas, disse coisas mais úteis do que você ouvirá em um ano dos economistas e jornalistas econômicos brasileiros.

Ele não apenas identificou o problema da desigualdade mas apontou caminhos para resolvê-lo.

A primeira coisa taxar mais os ricos.

No Brasil, por exemplo, a taxação das heranças gira em torno de 4% — um décimo do número inglês ou francês. Piketty desmontou, no Roda Viva, uma falácia amplamente disseminada pela mídia: o da alta carga tributária brasileira.

Ele citou países ricos como os escandinavos. Neles, a carga é de cerca de 50% do PIB. Falou depois em países pobres como Romênia e Bulgária, nos quais os tributos somam apenas 20% da economia.

O Brasil está no meio desses dois blocos, com 35%.

Qual exemplo seguir?

Você pode dizer que o cidadão, na Escandinávia, sabe onde vai parar o dinheiro de seu imposto – em escolas e hospitais públicos de alto nível, em estradas, portos e aeroportos de ponta etc etc.

No Brasil, a imprensa alimentou – em interesse próprio – que o dinheiro dos impostos termina nas mãos de políticos corruptos.

É um desserviço monstruoso à sociedade.

Piketty tem uma recomendação para isso: transparência. A sociedade tem que saber quanto é arrecadado em tributos, quem paga quanto, e onde o dinheiro é aplicado.

No Brasil, reina uma sombra espessa em torno da Receita.

Há mais de um ano sabe-se que a Globo cometeu um crime de sonegação, mas jamais a sociedade recebeu uma satisfação da Receita ou de alguma autoridade econômica.

Soube-se, há poucas semanas, que o Bradesco usou um paraíso fiscal para evitar imposto.

Que ação tomou a Receita? Ninguém sabe. O que todos sabemos é que o presidente do Bradesco foi convidado a ser o ministro da Economia. Ele recusou, e então o convite foi feito a um diretor do banco, Levy, que aceitou.

Não poderia haver mensagem pior, no capítulos dos impostos, para o cidadão comum.

Que governos conservadores protegessem os mais ricos, entende-se. Mas que em doze anos o PT não tenha feito nada para corrigir as distorções no sistema fiscal brasileiro é uma aberração.

Piketty, no Roda Viva, tratou de um outro ponto que explica em boa parte a desigualdade mundial: a falta de “proporção” na recompensa de inovadores.

Neste assunto, ele varreu elegantemente a defesa deslumbrada dos inovadores feita pelo economista André Lara Resende.

Piketty citou Bill Gates. Faz sentido ele haver acumulado um patrimônio de 60 bilhões de dólares por causa do Windows?

É o PIB de muitos países, notou ele. Qual o limite?

O que Piketty ponderou é que, se tivessem dito a Bill Gates quando jovem que ele acumularia uma riqueza de 1 bilhão de dólares, teria sido o suficiente para estimulá-lo a fazer o que viria a ser a Microsoft. Ou seja: a inovação não depende de oferecer dinheiro em proporções colossais aos “criadores”.

Da mesma forma, ele disse que estudou o desempenho de empresas americanas cujos presidentes ganham vários milhões de dólares por ano. A remuneração multimilionária de seus executivos, notou Piketty, não garante desempenho melhor.

Você tem que pagar bem os executivos. Mas isso não quer dizer que tenha que pagar um absurdo.

Piketty ajuda você a entender melhor o mundo. Por isso virou o fenômeno que é.

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Se você ainda não leu o Piketty, é bom se apressar para não ficar por aí reproduzindo discursos enlatados.
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Fonte: Paulo Nogueira/DCM

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