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Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa

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Até quando Emicida vai cantar sozinho contra o racismo?

Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, é um artista conectado com o espírito do tempo. Nas várias entrevistas que deu para divulgar o novo trabalho, “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos  e Lições de Casa”, o rapper mostra uma contundência de discurso que está faltando entre os outros artistas negros da MPB.

"Para mim, o racismo é o tema mais urgente hoje no Brasil”, disse em entrevista à BBC Brasil. O tema é discutido na música “Boa Esperança”, que mostra uma violenta rebelião de empregados domésticos contra patrões ricos e exploradores. Apesar de tocar em uma ferida que muitos evitam, a música, com versos pesados como “Cês diz que nosso pau é grande, espera até ver nosso ódio”, ganhou o Prêmio Multishow 2015 na categoria melhor clipe.

O ativismo de Emicida passaria batido se ele fosse só mais um rapper de gueto, mas o rapaz é pop. Ele já apareceu no Ratinho, foi entrevistado pela Angélica no programa Estrelas, esteve umas trocentas vezes no Esquenta e fez parcerias com o funkeiro ostentação Mc Guimê. No último disco fez parcerias com Vanessa da Matta e Caetano Veloso.

Ele está naquele estágio da carreira onde artistas tergiversam quando se deparam com assuntos espinhosos. Ao invés disso, afirma-se como a antítese das “celebridades” que postam hashtags ou fotos  com o semblante enfezado nas redes sociais e se dizem revoltadas com o racismo.

Não bastasse a contundência, o discurso de Emicida tem conteúdo. Leitor compulsivo, cita escritores como o moçambicano Mia Couto, a nigeriana Chimamanda Adichie e o cubano Carlos Moore. Entrecortadas por gírias, as influências juntam-se à experiência de vida e aparecem em depoimentos como este, dado à BBC:

“Acho que quando você nasce num bairro violento, a pior coisa que aquele ambiente faz para você é destruir a sua humanidade. E isso é uma coisa que é incomensurável, não tem como você quantificar o quanto de compaixão aquela pessoa perdeu por estar em um ambiente muito agressivo. (...) Esse negócio de sair para ir para escola e ter um corpo morto e você pular aquele corpo e seguir como um dia comum era normal. Se você vir isso nos Jardins (bairro nobre de São Paulo), a pessoa tem que fazer terapia. Com nós, é normal.”

Esta fala é uma pequena amostra da lucidez de Emicida, que percebe e tem consciência de situações que autoridades e boa parte da sociedade ignoram. Para resolver o problema da segurança pública, por exemplo, sugerem ações pontais como reduzir a maioridade penal e aumentar o efetivo policial, desprezando aspectos mais complexos como os que Emicida levanta.

Ele não é pioneiro na temática nem é a única voz na MPB a falar disso, mas ninguém é tão incisivo. Seu contemporâneo Criolo também aborda o assunto, porém em menor escala e é dado a devaneios verbais. Para complicar, atualmente está mais ocupado em vestir terninho branco para destruir as músicas de Tim Maia em conluio com Ivete Sangalo.

Emicida também vestiu branco recentemente, na Virada Cultural de São Paulo. Ele pedia paz, mas não era um pedido asséptico e piegas como os do Criança Esperança. "Não viemos de branco à toa. Viemos de branco porque uma menina tomou uma pedrada ao sair de um culto de candomblé. Nós viemos de branco porque tem gente que, para falar de jovem, fala mais de cadeia do que de escola", explicou ao público.

“O racismo é minha luta para a vida”, disse ele em entrevista à Folha de São Paulo. Emicida é bem jovem, tem 30 anos, ainda tem muito a mostrar. Corre risco de se enveredar por caminhos mais cômodos e evitar polêmicas sociais e políticas, como tantos outros nomes da MPB.

Mas o que ele tem demonstrado desde a estreia com o single “Triunfo”, em 2008, o chancela como a principal voz da música brasileira no debate sobre racismo e outras mazelas sociais.

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Marcos Sacramento

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