Pouco antes de Nelson Mandela deixar a presidência da África do Sul em 1999, a inquietação racial era um negócio lucrativo. Na biblioteca pública de Sandton, uma área nobre de Joanesburgo, eu assisti a uma palestra de um consultor, John Gambarana - especializado em ajudar pessoas a emigrarem - que advertia uma centena de pessoas, quase todos brancos, do caos e das mutilações que viriam no futuro.
Segurando um exemplar do livro de Lester Venter 'Quando Mandela Partir: a Vinda da Segunda Revolução Africana', ele disse: "pessoal, este livro é uma mensagem para que vocês acordem. A má notícia que ele traz é que [quando Mandela deixar a presidência] a merda vai acertar o ventilador. A boa notícia é que provavelmente nenhum ventilador estará funcionando."Menos de uma década depois de ser libertado, até aos olhos daqueles que viviam de disseminar o medo entre a população, Mandela deixou de ser um bicho-papão terrorista para ser o salvador da nação.
Os brancos sul-africanos o abraçaram do mesmo modo que a maioria dos norte-americanos brancos passaram a aceitar Martin Luther King: de má vontade mas agradecidos, embaraçados mas inteligentemente. No momento em que perceberam que sua antipatia em relação a ele era inútil, criou-se um mundo onde admirá-lo servia a seus próprios interesses. Porque, dali a pouco, eles não teriam escolha. Como o último líder do apartheid (F.W. de Klerk, que perdeu as eleições para Mandela) me disse naquele mesmo ano, "o mesmo equívoco que cometemos (a segregação racial) ainda estava sendo cometido nos EUA e nas ex-colônias. A questão é que o cometemos por mais outros 20 anos." Existem um milhão de diferenças entre o apartheid sul-africano e a segregação norte-americana, mas neste ponto Klerk estava absolutamente certo.